Olá, amigos
Nunca, como agora, desde 2014, um piloto e uma equipe se posicionaram tão bem para romper a hegemonia de Lewis Hamilton e da Mercedes na F1. Refiro-me a Max Verstappen, holandês, 24 anos, e a Red Bull-Honda.
Conto essa história desde o começo: a substituição da unidade motriz e a perda de cinco colocações no grid, na corrida principal do GP de São Paulo, domingo, não deveria ser, em princípio, um drama maior para Lewis Hamilton, da Mercedes.
Ok, o adversário na luta pelo título, Max, tem grande chance de largar na pole position e vencer, aumentando a já importante vantagem de 19 pontos na liderança do mundial, 312,5 a 293,5.
Mas a exemplo do que o próprio Max fez no GP da Rússia, em que largou em último, por causa da troca completa da unidade motriz, e chegou em segundo, Hamilton em Interlagos também poderia avançar muito na classificação. O segundo ou o terceiro lugar representaria uma colocação realista. Em resumo, o prejuízo não seria demasiadamente grande.
Steve Nielsen, diretor esportivo da F1, com que converso regularmente, disse-me que a Mercedes também escolheu Interlagos para instalar a quinta unidade motriz no carro de Hamilton por conta de seu traçado permitir ultrapassagens. Ninguém substituiria uma unidade motriz em Mônaco a não ser que fosse estritamente necessário.
Largar na terceira fila, domingo, dificultaria a vida de Hamilton na disputa pelo título, pois restarão em seguida ao evento de Interlagos apenas os do Qatar, dia 14, Arábia Saudita, 5 de dezembro, e Abu Dhabi, 12. Mas não inviabilizaria ainda a possibilidade de conquistar o oitavo mundial na brilhante carreira na F1.
Mudança de rumo radical
Tudo caminhava para esse cenário. Até que os comissários detectaram, depois da classificação, nesta sexta-feira, uma irregularidade no flap móvel (DRS) do modelo W12 de Hamilton, chamando os técnicos da Mercedes para explicar. Sem dispor de argumentos convincentes, não restou alternativa aos comissários senão simplesmente desclassificar Hamilton.
É isso que você leu: o adversário de Max na disputa do campeonato vai largar na última fila da sprint race do GP de São Paulo, neste sábado. Enquanto Max vai começar a corrida na pole position!
Veja a classificação e o calendário da F1
O holandês tocou no aerofólio traseiro da Mercedes W12 de Hamilton, depois da classificação, o que é expressamente proibido, pois os comissários verificam se o carro está dentro das regras. Por esse toque Max recebeu a multa de 50 mil euros, ou R$ 320 mil.
A definição do grid da corrida de domingo será conhecida exatamente na sprint race, em 24 voltas, cerca de meia hora, com largada às 16h30 horas.
E aqui há outro problema. Com Hamilton no fim do grid e somente 24 voltas para crescer na classificação, ultrapassar os adversários, não haverá como o piloto da Mercedes ir muito além, por exemplo, do décimo lugar, apesar de os 4.309 metros de Interlagos permitirem, como citei, ultrapassagens, em especial na freada do S do Senna.
Mais: as cinco posições de punição pela troca do motor de combustão interna (ICE) do seu carro serão aplicadas no grid da corrida de domingo, levando-o à 15º colocação na hipótese de terminar em décimo neste sábado.
Coloque-se no lugar do engenheiro de Hamilton, Peter Bonnington. O que faria nesse caso? Isso mesmo, trocaria novamente a unidade motriz de Hamilton, mas não apenas o ICE, senão a unidade completa, com seus sete elementos. Isso faria Hamilton começar o GP de São Paulo, domingo, na última colocação, como Max na Rússia.
A decisão permitiria a Hamilton ir para a corrida deste sábado e as três seguintes do calendário com tudo novo. Prejuízo por prejuízo, escolhamos o menos ruim.
O limite é de três unidades motrizes por piloto para todo o campeonato. Quem recorre a uma quarta, como Hamilton no Istambul Park, perde dez colocações no grid. Nas demais trocas, como agora, a quinta, cinco. Opção muito provavelmente substituída pela troca completa, daí largar em último no domingo também.
Max herdou a pole position do adversário na luta pelo título ao obter o segundo tempo neste sábado, surpreendentemente 438 milésimos pior que Hamilton. O próprio Max imaginava poder ser mais rápido, pelo histórico de seu time em Interlagos. Venceu a última edição do GP, em 2019, sem dificuldades. Mas em condição de corrida, a exemplo do México, há uma semana, a Red Bull-Honda deve ser mais competitiva.
É pouco provável que Valtteri Bottas, companheiro de Hamilton, seja capaz de desafiar Max caso o holandês vença a sprint race e largue em primeiro no domingo.
Troca de Max ficou para Jeddah
Por alguns instantes acreditei que Gianpiero Lambiase, engenheiro de Max, fosse decidir com seu grupo de trabalho substituir também a quarta unidade motriz instalada no modelo RB16B-Honda em Sochi, na Rússia. O holandês a manteve no carro nas etapas da Turquia, dos Estados Unidos, do México.
Como não o fizeram aqui em São Paulo, é muito provável que Max terá uma unidade motriz nova e completa no desafiador Circuito de Jeddah, na Arábia Saudita.
A expectativa de Toto Wolff, sócio e diretor da equipe Mercedes, é de que com a esperada troca de tudo para Hamilton neste sábado seu time não tenha mais de pensar no tema unidade motriz nas três provas restantes depois da em Interlagos.
Já Max deverá, sim. Isso tudo porque o evento no Circuito de Jeddah vai expô-las a severas exigências. Seu traçado é de altíssima velocidade e tem o maior trecho de aceleração plena do calendário, cerca de incríveis três mil metros.
Sabe o que mais me chamou a atenção na decisão de Peter Bonnington e seus engenheiros, o grupo ao redor de Hamilton? Foi vê-los substituir somente o motor de combustão interna (ICE). Agora não há como não acreditar que diante da desclassificação a Mercedes não fará a troca total.
Falamos disso, lembra? A unidade motriz é composta por sete elementos: o conjunto turbina-compressor (TC), o sistema de recuperação de energia cinética (MGU-K), o de energia térmica (MGU-H), as baterias (ES), a central eletrônica de gerenciamento (CE) e o escapamento (EX).
Com exceção do escapamento, em que são autorizados oito jogos por ano, Hamilton está no limite de todos os demais: terceiro TC, MGU-K e MGU-H, segundo ES e CE. Todos estão no seu carro desde Istambul. A Mercedes estava apostando não ser necessário trocá-los. Dessa forma, teriam de suportar sete GPs, com o temível da Arábia Saudita dentre eles.
Só esclarecendo: a troca de cada um desses componentes gera a perda de cinco posições no grid. Se ultrapassar 15 posições, pela substituição de mais de três elementos, o piloto vai para o fim do grid, como com Max na Rússia e deverá ser o caso de Hamilton em São Paulo.
Obviamente os profissionais da Mercedes dispunham dos mais distintos e precisos dados para avaliar a situação. “É uma aposta calculada”, disse Andrew Shovlin, diretor de engenharia da escuderia alemã. O raciocínio mais lógico e linear, no entanto, propõe a minha dúvida.
Vamos lá, daqui a pouco Hamilton deverá dar outra demonstração de arte, como podemos definir sua pilotagem, ao largar em último.
Abraços